Por Rodrigo Dourado
Hoje, cinco pessoas foram assistir CHAT. Eu fiquei me perguntando qual o sentido de fazer teatro no Recife. Todos eram amigos, aos quais agradecemos enormemente por nos darem de presente esta noite. Eu adoraria que esse espetáculo fosse visto por muitas pessoas, adoraria, mas somos uma produção off-off-off. Não temos uma grande produtora por trás, não temos atores de renome, não temos apadrinhamento, não temos espaço na imprensa. Não temos nada, além do nosso desejo enorme de fazer teatro e fazer bem feito. Será que vale à pena?
domingo, 15 de agosto de 2010
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
CHAT participa da Mostra "Sexualidades em Performance" do IV Seminário Internacional de Crítica Teatral
Nossa apresentação acontece no próximo dia 21.08, como último espetáculo da Mostra, às 20h, no Teatro Joaquim Cardozo.
Maiores informações em http://www.seminariocriticateatral.blogspot.com/
Compareçam!
Veja Matéria Completa da Folha de PE:
Caderno Programa
11.08.10
O papel da crítica
Seminário Internacional de Crítica Teatral promove debates sobre teatro contemporâneo
HUGO VIANA
A crítica cultural carrega em geral uma proposta reflexiva, de observar um produto artístico e sugerir leituras variadas, não apenas sobre a qualidade da obra, mas também onde ela se encaixa no panorama cultural de sua época. A preocupação da quarta edição do Seminário Internacional de Crítica Teatral, evento que começa neste sábado e vai até o dia 22 deste mês, no auditório do bloco J da Unicap, é debater essa identidade em transição da crítica, discutindo questões que fazem parte da produção teatral dos últimos dez anos e revisando o que esta primeira década do século 21 trouxe. As palestras (às 19h) que fazem parte da programação são gratuitas, a depender da lotação do espaço (as inscrições são feitas via e-mail: seminariodecritica@gmail.com ).
“Há muito tempo que se discute a ausência da crítica teatral nos grandes jornais”, explica Rodrigo Dourado, curador do evento. “O Recife teve atuação crítica forte nos anos 1950 e 60, com gente como Valdermar de Oliveira e Hermilo Borba Filho. Houve associação de críticos, cronistas teatrais, que congregavam uma série de intelectuais. Isso desapareceu mais ou menos nos anos 1990, quando a crítica teatral passou a ser uma atividade esporádica - a indústria cultural privilegia o cinema, a música, a moda, que passaram a ter mais importância do que teatro”, reflete o curador.
É nesse contexto que surgiu a ideia para o primeiro seminário, idealizado por Rodrigo e Wellington Júnior quando os dois ainda eram estudantes respectivamente de jornalismo e artes cênicas, na UFPE, e colavam suas críticas pelos corredores da universidade. Enquanto a primeira edição do seminário, em 2005, evidenciou o processo de historiografia da crítica teatral, convocando os decanos da área (como a carioca Bárbara Heliodora e o paulista Sábato Magaldi), a segunda e a terceira iniciaram um lento processo de reflexão para compreender a crítica teatral na formatação do pensamento analítico atual, algo que continua nesta quarta edição.
O seminário agrupa profissionais de diversas nacionalidades, o que certamente amplia o olhar lançado sobre as questões do teatro feito nesta década. Entre os palestrantes, estão a cubana Vivian Martinez Tabares (dia 14), o inglês Ian Herbert (dia 16), presidente honorário da Associação Internacional de Críticos de Teatro (IACT) e a japonesa Miyuki Takahashi (dia 19). “Embora o Recife se sinta um pouco excluído desse mercado teatral dos grandes centros, em geral em todos os lugares o teatro vive a mesma crise: de popularidade, de influência, de dinheiro. Especialmente o teatro experimental”, alerta Rodrigo. “O teatro que cada vez mais se parece com o cinema e a TV sempre tem dinheiro, mas o que quer continuar sendo teatro encontra dificuldades. Então acho que esse panorama que esta quarta edição promove, convidando profissionais de diferentes países, é bom para situar o Recife na produção do mundo. E eu adiantaria que a gente vai perceber que há mais semelhanças do que diferenças radicais”, reflete o curador.
MOSTRA
Além dessa proposta de pensar sobre a crítica teatral contemporânea, o Seminário também possui a Mostra de Espetáculos Locais, segmento que encena quatro peças pernambucanas, alinhadas a partir do eixo temático “Sexualidades em performance”. A programação será “Paloma para matar”, amanhã, no Teatro Alfredo de Oliveira, “Fio Invisível da Minha Cabeça”, no dia 18, no Teatro Capiba, “Chat”, no dia 21, no Teatro Joaquim Cardozo e “Senhora do afogados”, no dia 21, no Espaço Cênicas. “As três primeiras fazem um tipo de retrospectiva da produção teatral pernambucana nos últimos dez anos”, explica Luciano Rogério, um dos produtores do evento. “Já ‘Senhora dos afogados’ apresenta uma perspectiva, o que acreditamos que irá fundamentar a linguagem dos próximos dez anos”, ressalta Luciano.
Rodrigo, que atuou na seleção da mostra, e participa como diretor de “Chat”, explica o conceito que conecta as narrativas: “Essas quatro peças representam um recorte bem ousado: a cena e a sexualidade no teatro do recife. Tratamos das representações sexuais; ‘Paloma’ tem uma veia cômica e homossexual, ‘Fio invisível ‘, foi feita a partir de um texto de Caio Fernando Abreu e debate o homem, o sexo e a cidade, ‘Chat’, fala também a respeito da sexualidade e da virtualidade, e ‘Senhora’, texto de Nelson Rodrigues, que mais do que ninguém debate sexo. Optamos por esse tema das representações sexuais porque foi o que nos chamou a atenção nesta última década, como a cena do Recife articula identidades sexuais. É algo que diz muito sobre nosso teatro”.
Veja PROGRAMAÇÃO COMPLETA
Nesta edição de 2010, o Seminário Internacional de Crítica Teatral propõe um mergulho nos processos, métodos e estratégias da teatralidade contemporânea. O tema Encontro dos Continentes obtém a adesão dos principais pensadores do teatro contemporâneo mundial: Ian Herbert, da Inglaterra presidente honorário da Associação Internacional de Críticos de Teatro (IACT); Miyuki Takahashi, do Japão -crítica de teatro no Japão; Vivian Martinez Tabares, de Cuba teatróloga e editora da Revista Conjunto da Casa das Américas de Cuba. Além desses pensadores, dois interlocutores locais dividem o espaço de debate: Rodrigo Dourado - mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco; e Wellington Júnior - licenciando em Artes Cênicas, também pela Universidade Federal de Pernambuco.
No decorrer da programação do Seminário será realizada a Mostra Sexualidade(s) e Performance, com apresentações de quatro espetáculos locais que serão assistidos pelos críticos Kil Abreu (SP), Paulo Bio Toledo (SP), Duda Martins (PE) e Paulo Michelotto (PE).
Cada vez mais o Seminário Internacional de Crítica Teatral, único nessa categoria no Brasil, consolida-se como um espaço importante de reflexão sobre o fazer teatral contemporâneo. E põe o Recife como um dos mais importantes polos do pensamento cênico, colocando-o no centro da discussão mundial.
O Seminário Internacional de Crítica Teatral, edição 2010, justifica-se pela necessidade de cimentar as relações privilegiadas que têm sido construídas ao longo das suas realizações. O compromisso da Renascer Produções Culturais é o de contribuir para que profissionais e estudantes de teatro, bem como profissionais e estudantes de jornalismo (profissionais da informação) possam ter acesso a instrumentos e técnicas pertinentes a uma área tão específica como a crítica teatral. Além do quê, é necessário imprimir às realizações do Seminário outras perspectivas e visões enriquecedoras.
Programação Geral
14 de agosto às 19h
Abertura do Evento
19h30min
Palestra Vivian Tabares (Cuba)
Tema: O Teatro Latinoamericano na primeira década do século XXI
15 de agosto às 20h30min
Mostra Sexualidade(s) e Performance
Espetáculo Paloma Para Matar
Hórus Visão Cênica
Teatro Alfredo de Oliveira
Preço: R$ 20,00 (inteira) R$ 10,00 (meia entrada)
16 de agosto às 19h
Palestra Ian Herbert (Inglaterra)
Tema:Teatro Europeu de 2000 a 2010
17 de agosto às 19h
Palestra Rodrigo Dourado (Pernambuco)
Tema: Bonecas falando para o mundo: transformismo e performanceda (des)identidade pernambucana
18 de agosto às 20h
Mostra Sexualidade(s) e Performance
Espetáculo Fio Invisível da Minha Cabeça
Cia do Ator Nu
Teatro Capiba / Sesc de Casa Amarela
R$ 10,00 (preço único)
19 de agosto às 19h
Palestra Miyuki Takahashi (Japão)
Tema: Teatro Oriental na primeira década do século XXI
20 de agosto às 20h
Mostra Sexualidade(s) e Performance
Demonstração de Trabalho Senhora dos Afogados
Cênicas Companhia de Repertório
21 de agosto às 20h
Mostra Sexualidade(s) e Performance
Espetáculo Chat
Grupo Teatro de Fronteira
R$ 10,00 (preço único)
22 de agosto às 19h
Palestra Wellington Júnior (Pernambuco)
Tema: Por um teatro das encruzilhadas - de A Máquina até Encruzilhada Hamlet
Local das palestras:
Auditório do Bloco J da Unicap
Rua Nunes Machado, 81, Boa Vista
Informações: 81 4141-4726 / 8616-8950
Inscrições Gratuitas pelo e-mail: seminariodecritica@gmail.com
Maiores informações em http://www.seminariocriticateatral.blogspot.com/
Compareçam!
Veja Matéria Completa da Folha de PE:
Caderno Programa
11.08.10
O papel da crítica
Seminário Internacional de Crítica Teatral promove debates sobre teatro contemporâneo
HUGO VIANA
A crítica cultural carrega em geral uma proposta reflexiva, de observar um produto artístico e sugerir leituras variadas, não apenas sobre a qualidade da obra, mas também onde ela se encaixa no panorama cultural de sua época. A preocupação da quarta edição do Seminário Internacional de Crítica Teatral, evento que começa neste sábado e vai até o dia 22 deste mês, no auditório do bloco J da Unicap, é debater essa identidade em transição da crítica, discutindo questões que fazem parte da produção teatral dos últimos dez anos e revisando o que esta primeira década do século 21 trouxe. As palestras (às 19h) que fazem parte da programação são gratuitas, a depender da lotação do espaço (as inscrições são feitas via e-mail: seminariodecritica@gmail.com ).
“Há muito tempo que se discute a ausência da crítica teatral nos grandes jornais”, explica Rodrigo Dourado, curador do evento. “O Recife teve atuação crítica forte nos anos 1950 e 60, com gente como Valdermar de Oliveira e Hermilo Borba Filho. Houve associação de críticos, cronistas teatrais, que congregavam uma série de intelectuais. Isso desapareceu mais ou menos nos anos 1990, quando a crítica teatral passou a ser uma atividade esporádica - a indústria cultural privilegia o cinema, a música, a moda, que passaram a ter mais importância do que teatro”, reflete o curador.
É nesse contexto que surgiu a ideia para o primeiro seminário, idealizado por Rodrigo e Wellington Júnior quando os dois ainda eram estudantes respectivamente de jornalismo e artes cênicas, na UFPE, e colavam suas críticas pelos corredores da universidade. Enquanto a primeira edição do seminário, em 2005, evidenciou o processo de historiografia da crítica teatral, convocando os decanos da área (como a carioca Bárbara Heliodora e o paulista Sábato Magaldi), a segunda e a terceira iniciaram um lento processo de reflexão para compreender a crítica teatral na formatação do pensamento analítico atual, algo que continua nesta quarta edição.
O seminário agrupa profissionais de diversas nacionalidades, o que certamente amplia o olhar lançado sobre as questões do teatro feito nesta década. Entre os palestrantes, estão a cubana Vivian Martinez Tabares (dia 14), o inglês Ian Herbert (dia 16), presidente honorário da Associação Internacional de Críticos de Teatro (IACT) e a japonesa Miyuki Takahashi (dia 19). “Embora o Recife se sinta um pouco excluído desse mercado teatral dos grandes centros, em geral em todos os lugares o teatro vive a mesma crise: de popularidade, de influência, de dinheiro. Especialmente o teatro experimental”, alerta Rodrigo. “O teatro que cada vez mais se parece com o cinema e a TV sempre tem dinheiro, mas o que quer continuar sendo teatro encontra dificuldades. Então acho que esse panorama que esta quarta edição promove, convidando profissionais de diferentes países, é bom para situar o Recife na produção do mundo. E eu adiantaria que a gente vai perceber que há mais semelhanças do que diferenças radicais”, reflete o curador.
MOSTRA
Além dessa proposta de pensar sobre a crítica teatral contemporânea, o Seminário também possui a Mostra de Espetáculos Locais, segmento que encena quatro peças pernambucanas, alinhadas a partir do eixo temático “Sexualidades em performance”. A programação será “Paloma para matar”, amanhã, no Teatro Alfredo de Oliveira, “Fio Invisível da Minha Cabeça”, no dia 18, no Teatro Capiba, “Chat”, no dia 21, no Teatro Joaquim Cardozo e “Senhora do afogados”, no dia 21, no Espaço Cênicas. “As três primeiras fazem um tipo de retrospectiva da produção teatral pernambucana nos últimos dez anos”, explica Luciano Rogério, um dos produtores do evento. “Já ‘Senhora dos afogados’ apresenta uma perspectiva, o que acreditamos que irá fundamentar a linguagem dos próximos dez anos”, ressalta Luciano.
Rodrigo, que atuou na seleção da mostra, e participa como diretor de “Chat”, explica o conceito que conecta as narrativas: “Essas quatro peças representam um recorte bem ousado: a cena e a sexualidade no teatro do recife. Tratamos das representações sexuais; ‘Paloma’ tem uma veia cômica e homossexual, ‘Fio invisível ‘, foi feita a partir de um texto de Caio Fernando Abreu e debate o homem, o sexo e a cidade, ‘Chat’, fala também a respeito da sexualidade e da virtualidade, e ‘Senhora’, texto de Nelson Rodrigues, que mais do que ninguém debate sexo. Optamos por esse tema das representações sexuais porque foi o que nos chamou a atenção nesta última década, como a cena do Recife articula identidades sexuais. É algo que diz muito sobre nosso teatro”.
Veja PROGRAMAÇÃO COMPLETA
Nesta edição de 2010, o Seminário Internacional de Crítica Teatral propõe um mergulho nos processos, métodos e estratégias da teatralidade contemporânea. O tema Encontro dos Continentes obtém a adesão dos principais pensadores do teatro contemporâneo mundial: Ian Herbert, da Inglaterra presidente honorário da Associação Internacional de Críticos de Teatro (IACT); Miyuki Takahashi, do Japão -crítica de teatro no Japão; Vivian Martinez Tabares, de Cuba teatróloga e editora da Revista Conjunto da Casa das Américas de Cuba. Além desses pensadores, dois interlocutores locais dividem o espaço de debate: Rodrigo Dourado - mestre em Comunicação pela Universidade Federal de Pernambuco; e Wellington Júnior - licenciando em Artes Cênicas, também pela Universidade Federal de Pernambuco.
No decorrer da programação do Seminário será realizada a Mostra Sexualidade(s) e Performance, com apresentações de quatro espetáculos locais que serão assistidos pelos críticos Kil Abreu (SP), Paulo Bio Toledo (SP), Duda Martins (PE) e Paulo Michelotto (PE).
Cada vez mais o Seminário Internacional de Crítica Teatral, único nessa categoria no Brasil, consolida-se como um espaço importante de reflexão sobre o fazer teatral contemporâneo. E põe o Recife como um dos mais importantes polos do pensamento cênico, colocando-o no centro da discussão mundial.
O Seminário Internacional de Crítica Teatral, edição 2010, justifica-se pela necessidade de cimentar as relações privilegiadas que têm sido construídas ao longo das suas realizações. O compromisso da Renascer Produções Culturais é o de contribuir para que profissionais e estudantes de teatro, bem como profissionais e estudantes de jornalismo (profissionais da informação) possam ter acesso a instrumentos e técnicas pertinentes a uma área tão específica como a crítica teatral. Além do quê, é necessário imprimir às realizações do Seminário outras perspectivas e visões enriquecedoras.
Programação Geral
14 de agosto às 19h
Abertura do Evento
19h30min
Palestra Vivian Tabares (Cuba)
Tema: O Teatro Latinoamericano na primeira década do século XXI
15 de agosto às 20h30min
Mostra Sexualidade(s) e Performance
Espetáculo Paloma Para Matar
Hórus Visão Cênica
Teatro Alfredo de Oliveira
Preço: R$ 20,00 (inteira) R$ 10,00 (meia entrada)
16 de agosto às 19h
Palestra Ian Herbert (Inglaterra)
Tema:Teatro Europeu de 2000 a 2010
17 de agosto às 19h
Palestra Rodrigo Dourado (Pernambuco)
Tema: Bonecas falando para o mundo: transformismo e performanceda (des)identidade pernambucana
18 de agosto às 20h
Mostra Sexualidade(s) e Performance
Espetáculo Fio Invisível da Minha Cabeça
Cia do Ator Nu
Teatro Capiba / Sesc de Casa Amarela
R$ 10,00 (preço único)
19 de agosto às 19h
Palestra Miyuki Takahashi (Japão)
Tema: Teatro Oriental na primeira década do século XXI
20 de agosto às 20h
Mostra Sexualidade(s) e Performance
Demonstração de Trabalho Senhora dos Afogados
Cênicas Companhia de Repertório
21 de agosto às 20h
Mostra Sexualidade(s) e Performance
Espetáculo Chat
Grupo Teatro de Fronteira
R$ 10,00 (preço único)
22 de agosto às 19h
Palestra Wellington Júnior (Pernambuco)
Tema: Por um teatro das encruzilhadas - de A Máquina até Encruzilhada Hamlet
Local das palestras:
Auditório do Bloco J da Unicap
Rua Nunes Machado, 81, Boa Vista
Informações: 81 4141-4726 / 8616-8950
Inscrições Gratuitas pelo e-mail: seminariodecritica@gmail.com
CARRAR e GUARDA-CHUVA
Por Rodrigo Dourado
Eu tou escrevendo esse post, mas confesso que morrendo de medo das leituras enviesadas que ele pode causar. Conversando com Roberto Lúcio, que é um pernambaiano, lá em Salvador nesse meu período de estada na capital baiana, ele me disse uma coisa muito simples, porém altamente esclarecedora a respeito do "espírito" das duas "metrópoles" nordestinas. Vou parafrasear: "Salvador é uma cidade novidadeira. Gosta dos novos, incentiva-os. Recife é uma cidade da tradição, desconfia e duvida dos novos".
Essa conversa se deu porque eu fui assistir a um grupo de alunos egressos da UFBA que havia montado um espetáculo de conclusão de curso com direção de Luiz Marfuz, e estava fazendo o maior sucesso em temporada na Sala do Coro do Teatro Castro Alves. Claro, era uma comédia. Claro, tinha Luiz Marfuz (respeitado na cidade) por trás. Claro, a montagem de fato tinha muitas qualidades e o elenco era bom. Claro, o baiano vai mais ao teatro que o pernambucano.
Mas quando eu vi o programa deles e a quantidade de apoios que conseguiram, fiquei assustado. Era muita coisa. E Roberto me esclareceu que era um grupo com uma "pegada" boa de produção, mas que, além disso, havia uma simpatia da cidade (especialmente dos comerciantes, empresários, imprensa) pelo que era novo.
Isso realmente mexeu comigo. Porque faz exatamente 16 anos que eu estou metido com o mercado teatral dessa cidade do Recife. 13 com mais intensidade. Vendo tudo, fazendo, errando, acertando. E eu continuo sendo novo. Às vezes eu acho engraçado, às vezes, eu acho cansativo. No começo dessa década, mais precisamente em 2003, houve um grande debate sobre a nova cena da cidade, os novos diretores e tal. E eu estava lá, participando ativamente do "babado". Isso realmente impregnou-se no discurso das pesssoas naquele tempo e parecia uma visada esperançosa. Mas esse debate se esvaziou, muitos pararam de dirigir e o foco nos diretores cessou, voltando-se para os grupos a partir de 2005.
A verdade é que esse comportamento recifense, pernambucano, é visível nos movimentos culturais da cidade e no métier teatral é "batata'. Na Imprensa, então, nem se fala. Nas comissões de leis de incentivo, afe maria! Os projetos têm que ter sempre os mesmos nomes, as pessoas não acreditam que você possa fazer algo interessante. E a cidade vai, assim, ficando mofada, velha, cansada, repetitiva, reacionária, conservadora. Enfim, é triste.
Eu não acho que a gente não deva estender o tapete para os experientes, os mestres. Mas aqui, essa relação se estabelece como uma relação de disputa, tipo: "Eles querem tomar o nosso lugar. Não podemos deixar". Eu não sei de onde vem isso, talvez desse sentimento pernambucano eterno de ter sido superado economicamente por outros estados do Brasil, essa necessidade de se apegar ao "antigo" como valor absoluto de troca da nossa cultura. Enfim, sou todo incertezas.
Agora, por exemplo, na cidade, estão em cartaz dois espetáculos de diretores que começaram suas carreiras nos anos 70 e com os quais o teatro do Recife tem um grande débito. Eu presto toda reverência, deferência, a esses dois: Cadengue e Denys, que me ensinaram um bocado sobre teatro com seus escritos, com sua cena, com suas falas, mesmo que não saibam disso.
E acho que a relação tem de ser essa, reconhecer a história - não se alienar dela - mas não temer o futuro, investir nele. Por isso, eu digo, vão assistir CHAT, mas não deixem de ver Lágrima de um Guarda-Chuva e Os fuzis da senhora Carrar. Eu já vi o primeiro.
Segue matéria sobre os fuzis no JC.
» DRAMA
Senhora Carrar volta depois de três décadas
Publicado em 13.08.2010
Stella Maris Sandanha estreia hoje no papel que a revelou como atriz, na montagem do clássico de Bertolt Brecht
Duda Martins
emartins@jc.com.br
Há 32 anos, uma atriz iniciante ganhava do seu diretor um dos principais papéis da sua carreira. Tereza Carrar era uma personagem complexa, madura, cheia de significados, e aos 18 anos era quase impossível Stella Maris Saldanha absorver todo o peso que a cria do alemão Bertolt Brecht carrega. Quase, pois a despeito da falta de experiência, o papel lhe rendeu, naquele ano de 1978, o prêmio de Atriz revelação. A peça tinha direção de Marcus Siqueira e trazia no elenco ainda o jovem João Denys, que no auge dos seus 22 anos se entregava ao primeiro trabalho de repertório dentro do grupo Teatro Hermilo Borba Filho. Stella e João Denys voltam no tempo amanhã, às 18h, com a estreia de Os fuzis da Senhora Carrar. Agora no papel de diretor, Denys afirma: “não é uma réplica do que foi visto há mais de 30 anos, mas pretendemos emocionar as pessoas como fizemos naquele tempo”.
A peça é o pontapé inicial do projeto Transgressão em Três Atos, idealizado por Stella Maris, em parceria com os professores e pesquisadores Alexandre Figueirôa e Cláudio Bezerra. O trio fará um estudo sobre três dos mais emblemáticos grupos de teatro de Pernambuco, o THBF, o TPN e o Vivencial Diversiones. A primeira etapa é a montagem dos espetáculos que marcaram a trajetória das companhias.
O casting de Os fuzis foi cuidadosamente escolhido. “Queríamos pessoas que de alguma forma estivessem envolvidas com a história do THBF”, disse Stella. Socorro Albino, José Ramos e Eduardo Diógenes são egressos do extinto grupo. Também foram convidados Roger Bravo e Alfredo Borba, (filho de Hermilo), que anunciou ser essa a sua última participação nos palcos recifenses.
Considerada uma das obras mais dramáticas de Brecht e um dos maiores clássicos da dramaturgia mundial, a peça é ambientada no ano de 1936, durante os conflitos político-sociológicos da Guerra Civil Espanhola. Após ter perdido o marido lutando nas brigadas de autodefesa, a Senhora Carrar se enclausura junto com suas contradições existenciais e teme o futuro de um dos seus filhos, que está prestes a tomar o mesmo caminho do pai, alistando-se junto à forças armadas. “Eu não acredito nem em resgate, nem em remontagem. O tempo é inapreensível. Tudo hoje é diferente. Seria me molestar muito, trabalhar em cima dessa proposta. Se naquela época a peça estava grudada aos resquícios de uma ditadura, no fim de 70, a nossa questão é mais voltada para uma revolução ética”, contextualiza Denys. Segundo ele, a questão basilar desta montagem é a não-neutralidade. “O texto instiga as pessoas a tomarem partido. Fazer com que elas reflitam sobre a importância de suas decisões”, diz o diretor.
Poucas modificações diferenciam a cenografia atual do cenário projetado na primeira encenação, feita no antigo Teatro Hermilo Borba Filho, sediado em uma pequena casa em uma das ladeiras de Olinda. O cenário reproduz o estreito palco daquele teatro, com os mesmos objetos cênicos.
Marcus Siqueira é o principal homenageado na noite de estreia do espetáculo. Merecedor de toda a devoção dos atores – que o tratavam como mestre – o antigo diretor do grupo foi a força motriz desse projeto. “Ele defendia uma estrutura cênica despojada de ilusões e artifícios. Era um teatro de ideias e de expressão social”, explica Stella. “Eu nunca consegui me divorciar da Senhora Carrar. Essa é uma possibilidade de tocar em coisas escondidas, inclusive no amor. Eu tinha um grande amor por Marcus Siqueira. Quando ele morreu fiquei meio órfã, meio viúva. Se você me perguntar hoje qual é o meu estado de espírito eu digo: eu sou uma mulher apaixonada. São muitos os caminhos que levam a esta montagem. Da grandeza do autor do texto, Bertolt Brecht, à alegria de representar. Mas agora, escolho apenas dois desses caminhos vários: a provocação e o afeto”, completa a atriz.
» Os fuzis da Senhora Carrar. Amanhã e domingo, às 18h. Teatro Hermilo Borba Filho (Av. Cais do Apolo, s/n, Bairro do Recife). Ingressos: R$ 20 e R$ 10. Fone: 3232-2030.
Eu tou escrevendo esse post, mas confesso que morrendo de medo das leituras enviesadas que ele pode causar. Conversando com Roberto Lúcio, que é um pernambaiano, lá em Salvador nesse meu período de estada na capital baiana, ele me disse uma coisa muito simples, porém altamente esclarecedora a respeito do "espírito" das duas "metrópoles" nordestinas. Vou parafrasear: "Salvador é uma cidade novidadeira. Gosta dos novos, incentiva-os. Recife é uma cidade da tradição, desconfia e duvida dos novos".
Essa conversa se deu porque eu fui assistir a um grupo de alunos egressos da UFBA que havia montado um espetáculo de conclusão de curso com direção de Luiz Marfuz, e estava fazendo o maior sucesso em temporada na Sala do Coro do Teatro Castro Alves. Claro, era uma comédia. Claro, tinha Luiz Marfuz (respeitado na cidade) por trás. Claro, a montagem de fato tinha muitas qualidades e o elenco era bom. Claro, o baiano vai mais ao teatro que o pernambucano.
Mas quando eu vi o programa deles e a quantidade de apoios que conseguiram, fiquei assustado. Era muita coisa. E Roberto me esclareceu que era um grupo com uma "pegada" boa de produção, mas que, além disso, havia uma simpatia da cidade (especialmente dos comerciantes, empresários, imprensa) pelo que era novo.
Isso realmente mexeu comigo. Porque faz exatamente 16 anos que eu estou metido com o mercado teatral dessa cidade do Recife. 13 com mais intensidade. Vendo tudo, fazendo, errando, acertando. E eu continuo sendo novo. Às vezes eu acho engraçado, às vezes, eu acho cansativo. No começo dessa década, mais precisamente em 2003, houve um grande debate sobre a nova cena da cidade, os novos diretores e tal. E eu estava lá, participando ativamente do "babado". Isso realmente impregnou-se no discurso das pesssoas naquele tempo e parecia uma visada esperançosa. Mas esse debate se esvaziou, muitos pararam de dirigir e o foco nos diretores cessou, voltando-se para os grupos a partir de 2005.
A verdade é que esse comportamento recifense, pernambucano, é visível nos movimentos culturais da cidade e no métier teatral é "batata'. Na Imprensa, então, nem se fala. Nas comissões de leis de incentivo, afe maria! Os projetos têm que ter sempre os mesmos nomes, as pessoas não acreditam que você possa fazer algo interessante. E a cidade vai, assim, ficando mofada, velha, cansada, repetitiva, reacionária, conservadora. Enfim, é triste.
Eu não acho que a gente não deva estender o tapete para os experientes, os mestres. Mas aqui, essa relação se estabelece como uma relação de disputa, tipo: "Eles querem tomar o nosso lugar. Não podemos deixar". Eu não sei de onde vem isso, talvez desse sentimento pernambucano eterno de ter sido superado economicamente por outros estados do Brasil, essa necessidade de se apegar ao "antigo" como valor absoluto de troca da nossa cultura. Enfim, sou todo incertezas.
Agora, por exemplo, na cidade, estão em cartaz dois espetáculos de diretores que começaram suas carreiras nos anos 70 e com os quais o teatro do Recife tem um grande débito. Eu presto toda reverência, deferência, a esses dois: Cadengue e Denys, que me ensinaram um bocado sobre teatro com seus escritos, com sua cena, com suas falas, mesmo que não saibam disso.
E acho que a relação tem de ser essa, reconhecer a história - não se alienar dela - mas não temer o futuro, investir nele. Por isso, eu digo, vão assistir CHAT, mas não deixem de ver Lágrima de um Guarda-Chuva e Os fuzis da senhora Carrar. Eu já vi o primeiro.
Segue matéria sobre os fuzis no JC.
» DRAMA
Senhora Carrar volta depois de três décadas
Publicado em 13.08.2010
Stella Maris Sandanha estreia hoje no papel que a revelou como atriz, na montagem do clássico de Bertolt Brecht
Duda Martins
emartins@jc.com.br
Há 32 anos, uma atriz iniciante ganhava do seu diretor um dos principais papéis da sua carreira. Tereza Carrar era uma personagem complexa, madura, cheia de significados, e aos 18 anos era quase impossível Stella Maris Saldanha absorver todo o peso que a cria do alemão Bertolt Brecht carrega. Quase, pois a despeito da falta de experiência, o papel lhe rendeu, naquele ano de 1978, o prêmio de Atriz revelação. A peça tinha direção de Marcus Siqueira e trazia no elenco ainda o jovem João Denys, que no auge dos seus 22 anos se entregava ao primeiro trabalho de repertório dentro do grupo Teatro Hermilo Borba Filho. Stella e João Denys voltam no tempo amanhã, às 18h, com a estreia de Os fuzis da Senhora Carrar. Agora no papel de diretor, Denys afirma: “não é uma réplica do que foi visto há mais de 30 anos, mas pretendemos emocionar as pessoas como fizemos naquele tempo”.
A peça é o pontapé inicial do projeto Transgressão em Três Atos, idealizado por Stella Maris, em parceria com os professores e pesquisadores Alexandre Figueirôa e Cláudio Bezerra. O trio fará um estudo sobre três dos mais emblemáticos grupos de teatro de Pernambuco, o THBF, o TPN e o Vivencial Diversiones. A primeira etapa é a montagem dos espetáculos que marcaram a trajetória das companhias.
O casting de Os fuzis foi cuidadosamente escolhido. “Queríamos pessoas que de alguma forma estivessem envolvidas com a história do THBF”, disse Stella. Socorro Albino, José Ramos e Eduardo Diógenes são egressos do extinto grupo. Também foram convidados Roger Bravo e Alfredo Borba, (filho de Hermilo), que anunciou ser essa a sua última participação nos palcos recifenses.
Considerada uma das obras mais dramáticas de Brecht e um dos maiores clássicos da dramaturgia mundial, a peça é ambientada no ano de 1936, durante os conflitos político-sociológicos da Guerra Civil Espanhola. Após ter perdido o marido lutando nas brigadas de autodefesa, a Senhora Carrar se enclausura junto com suas contradições existenciais e teme o futuro de um dos seus filhos, que está prestes a tomar o mesmo caminho do pai, alistando-se junto à forças armadas. “Eu não acredito nem em resgate, nem em remontagem. O tempo é inapreensível. Tudo hoje é diferente. Seria me molestar muito, trabalhar em cima dessa proposta. Se naquela época a peça estava grudada aos resquícios de uma ditadura, no fim de 70, a nossa questão é mais voltada para uma revolução ética”, contextualiza Denys. Segundo ele, a questão basilar desta montagem é a não-neutralidade. “O texto instiga as pessoas a tomarem partido. Fazer com que elas reflitam sobre a importância de suas decisões”, diz o diretor.
Poucas modificações diferenciam a cenografia atual do cenário projetado na primeira encenação, feita no antigo Teatro Hermilo Borba Filho, sediado em uma pequena casa em uma das ladeiras de Olinda. O cenário reproduz o estreito palco daquele teatro, com os mesmos objetos cênicos.
Marcus Siqueira é o principal homenageado na noite de estreia do espetáculo. Merecedor de toda a devoção dos atores – que o tratavam como mestre – o antigo diretor do grupo foi a força motriz desse projeto. “Ele defendia uma estrutura cênica despojada de ilusões e artifícios. Era um teatro de ideias e de expressão social”, explica Stella. “Eu nunca consegui me divorciar da Senhora Carrar. Essa é uma possibilidade de tocar em coisas escondidas, inclusive no amor. Eu tinha um grande amor por Marcus Siqueira. Quando ele morreu fiquei meio órfã, meio viúva. Se você me perguntar hoje qual é o meu estado de espírito eu digo: eu sou uma mulher apaixonada. São muitos os caminhos que levam a esta montagem. Da grandeza do autor do texto, Bertolt Brecht, à alegria de representar. Mas agora, escolho apenas dois desses caminhos vários: a provocação e o afeto”, completa a atriz.
» Os fuzis da Senhora Carrar. Amanhã e domingo, às 18h. Teatro Hermilo Borba Filho (Av. Cais do Apolo, s/n, Bairro do Recife). Ingressos: R$ 20 e R$ 10. Fone: 3232-2030.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
quinta-feira, 5 de agosto de 2010
MAIS UM ESPETÁCULO COMERCIAL ARRASA-QUARTEIRÃO NO SANTA ISABEL
Por Rodrigo Dourado
Todo fim de semana, Recife recebe um espetáculo arrasa-quarteirão nalgum teatrão da cidade: Santa Isabel, UFPE, Guararapes. A cidade (como todas as periferias do Brasil) é uma excelente rota para essas produções, de caráter comercial, com rostos televisivos e tal. Isso porque uma boa parcela da população da cidade ignora o teatro local, que não tem espaço na imprensa, e vive numa mediocrização generalizada, pautando o acesso aos bens culturais a partir do que dita a TV. Eu não sou ingênuo de achar que a Imprensa local não "abriria" as pernas para esse tipo de produto, segundo aquela lógica: as pessoas querem isso! E a gente fica sem saber se as pessoas querem isso, de fato, ou só querem porque só conhecem e têm acesso a isso.
Enfim, a verdade, é que eu fico chocado como os espaços antes totalmente cerrados para nós, que estamos em cartaz na cidade, se abrem de maneira tão generosa para essas produções. Principalmente na TV local, que ignora solenemente o teatro que se faz aqui, me deixando as vezes com a impressão de que fazer teatro em Recife é um capricho.
Na prática, agora que estou em cartaz, torço para que, a cada final de semana, alguém tenha a brilhante ideia de olhar o diminuto roteiro do jornal e se interesse em nos ver. Enfim, tudo isso, pq agora, nos dias 07 e 08 é a vez de Mulheres solteiras procuram, no Santa Isabel, como o ator O ator Daniel Del Sarto, que, segundo matéria do JC OnLine "já foi namorado de Sandy na ficção e atualmente integra o elenco de A turma do Didi".
Haja paciência!
Todo fim de semana, Recife recebe um espetáculo arrasa-quarteirão nalgum teatrão da cidade: Santa Isabel, UFPE, Guararapes. A cidade (como todas as periferias do Brasil) é uma excelente rota para essas produções, de caráter comercial, com rostos televisivos e tal. Isso porque uma boa parcela da população da cidade ignora o teatro local, que não tem espaço na imprensa, e vive numa mediocrização generalizada, pautando o acesso aos bens culturais a partir do que dita a TV. Eu não sou ingênuo de achar que a Imprensa local não "abriria" as pernas para esse tipo de produto, segundo aquela lógica: as pessoas querem isso! E a gente fica sem saber se as pessoas querem isso, de fato, ou só querem porque só conhecem e têm acesso a isso.
Enfim, a verdade, é que eu fico chocado como os espaços antes totalmente cerrados para nós, que estamos em cartaz na cidade, se abrem de maneira tão generosa para essas produções. Principalmente na TV local, que ignora solenemente o teatro que se faz aqui, me deixando as vezes com a impressão de que fazer teatro em Recife é um capricho.
Na prática, agora que estou em cartaz, torço para que, a cada final de semana, alguém tenha a brilhante ideia de olhar o diminuto roteiro do jornal e se interesse em nos ver. Enfim, tudo isso, pq agora, nos dias 07 e 08 é a vez de Mulheres solteiras procuram, no Santa Isabel, como o ator O ator Daniel Del Sarto, que, segundo matéria do JC OnLine "já foi namorado de Sandy na ficção e atualmente integra o elenco de A turma do Didi".
Haja paciência!
quarta-feira, 4 de agosto de 2010
O ENSAIO ABERTO I
Por Rodrigo Dourado (Diretor)
Em 08 de Dezembro do ano passado, fizemos um ensaio aberto de CHAT, dentro da Mostra Capiba de Teatro, do Sesc Casa Amarela. Foi um momento decisivo para o grupo, para mim, para todos. Estávamos trabalhando desde abril, tínhamos pensando várias vezes em datas para estreia, submetemos um projeto de temporada ao Capiba e desistimos. Foi um período difícil, eu estava meio obcecado com a ideia de não virar 2009 sem apresentar qualquer resultado do trabalho. Tudo era muito instável, ficamos sem produtor, a cena ainda estava em plena construção, nada estava fechado e era muito difícil concluir um trabalho de direção de arte com a cena ainda aberta daquele jeito e eu tive de assumir tudo, junto com os atores. Para eles, foi um aprendizado de pedra, pq não estava no nosso acordo que eles teriam de assumir outras funções que não a de atores.
Foi um enorme aprendizado para mim como diretor. Primeiro, nosso trabalho de dissecação do texto foi maravilhoso. Fizemos um aprofundamento enorme, com todos presentes - inclusive Wellington - debatemos todas as temáticas do texto - políticas, religiosas, econômicas, etc. - investigamos as personagens a partir do modelo actancial de Greimas/Ubersfeld - isso porque eu já tinha em mente que minha abordagem não seria psicologizante, mas política e épica. Desmontamos o texto, duvidamos das personagens, investigamos as fragilidades da dramaturgia, debatemos as possíveis transposições para a cena. Assistimos filmes, buscamos as referências literárias do texto, como Blake. Lemos, lemos, lemos. Inflexões, entonações, imagens, climas, personas. E, então, pulamos para construir as cenas. Esse foi meu primeiro erro, imaginar que meus atores conseguiriam saltar de uma fase meramente textual/verbal/intelectual para a fisicalidade/afetividade da cena e das personagens. Não seria tão fácil.
Na sala de ensaios, comecei a propor que as cenas fossem construídas tomando por base a ideia do estranhamento das formas. Não queria que fossem criadas a partir da relação homem/computador – máquina, como está indicado no texto: personagens (no I ATO) tendo à frente teclados de computador e os diálogos se dando dessa maneira. Eu achava que as cenas tinham tanta teatralidade, que mereciam outras formas, mais vivas. E que nossas cenas deveriam sugerir outras perspectivas, outros ângulos de visão para aqueles diálogos e situações. Abandonando, assim, a noção de que as personagens não se viam, não se tocavam, estavam apartadas e protegidas atrás do monitor. Para mim, mesmo no CHAT, os encontros aconteciam, as pessoas se tocavam. Mas esses encontros se davam não de forma realista, mas de maneira teatral, com as personagens/nicks/pessoas se transformando em tipos/forças. Com aquelas fantasias da CHAT transformando-se em TEATRO, numa espetacularidade manifesta, exposta. Deixando assim uma abordagem meramente psicológica e algo realista (o que geraria algum conforto para a plateia) na direção de uma abordagem estranhada, política e não realista (o que demandaria da plateia uma postura ativa e refelxiva).
A ideia também era colar outras camadas de sentido aos diálogos e aos encontros, estranhando-os, colocando em risco as palavras, duvidando e reelaborando as informações das falas e criando outras situações. E assim, fizemos, tudo com o objetivo de superar uma leitura aligeirada da dramaturgia, das personagens e obstruir qualquer leitura superficial da plateia. Queríamos que a plateia estranhasse a forma, com o objetivo de acordá-la, despertá-la para os conteúdos. Especialmente porque os temas que a peça aborda são muito reconhecíveis, estão no noticiário diariamente, há uma saturação deles. Assim precisávamos, politicamente, aprofundar o debate, desmontar as representações cotidianas dos temas e das personagens, e para isso era extremamente necessário estranhar as formas. Tudo muito brechtiano. (Continua...)
Imagem do ensaio aberto:
Em 08 de Dezembro do ano passado, fizemos um ensaio aberto de CHAT, dentro da Mostra Capiba de Teatro, do Sesc Casa Amarela. Foi um momento decisivo para o grupo, para mim, para todos. Estávamos trabalhando desde abril, tínhamos pensando várias vezes em datas para estreia, submetemos um projeto de temporada ao Capiba e desistimos. Foi um período difícil, eu estava meio obcecado com a ideia de não virar 2009 sem apresentar qualquer resultado do trabalho. Tudo era muito instável, ficamos sem produtor, a cena ainda estava em plena construção, nada estava fechado e era muito difícil concluir um trabalho de direção de arte com a cena ainda aberta daquele jeito e eu tive de assumir tudo, junto com os atores. Para eles, foi um aprendizado de pedra, pq não estava no nosso acordo que eles teriam de assumir outras funções que não a de atores.
Foi um enorme aprendizado para mim como diretor. Primeiro, nosso trabalho de dissecação do texto foi maravilhoso. Fizemos um aprofundamento enorme, com todos presentes - inclusive Wellington - debatemos todas as temáticas do texto - políticas, religiosas, econômicas, etc. - investigamos as personagens a partir do modelo actancial de Greimas/Ubersfeld - isso porque eu já tinha em mente que minha abordagem não seria psicologizante, mas política e épica. Desmontamos o texto, duvidamos das personagens, investigamos as fragilidades da dramaturgia, debatemos as possíveis transposições para a cena. Assistimos filmes, buscamos as referências literárias do texto, como Blake. Lemos, lemos, lemos. Inflexões, entonações, imagens, climas, personas. E, então, pulamos para construir as cenas. Esse foi meu primeiro erro, imaginar que meus atores conseguiriam saltar de uma fase meramente textual/verbal/intelectual para a fisicalidade/afetividade da cena e das personagens. Não seria tão fácil.
Na sala de ensaios, comecei a propor que as cenas fossem construídas tomando por base a ideia do estranhamento das formas. Não queria que fossem criadas a partir da relação homem/computador – máquina, como está indicado no texto: personagens (no I ATO) tendo à frente teclados de computador e os diálogos se dando dessa maneira. Eu achava que as cenas tinham tanta teatralidade, que mereciam outras formas, mais vivas. E que nossas cenas deveriam sugerir outras perspectivas, outros ângulos de visão para aqueles diálogos e situações. Abandonando, assim, a noção de que as personagens não se viam, não se tocavam, estavam apartadas e protegidas atrás do monitor. Para mim, mesmo no CHAT, os encontros aconteciam, as pessoas se tocavam. Mas esses encontros se davam não de forma realista, mas de maneira teatral, com as personagens/nicks/pessoas se transformando em tipos/forças. Com aquelas fantasias da CHAT transformando-se em TEATRO, numa espetacularidade manifesta, exposta. Deixando assim uma abordagem meramente psicológica e algo realista (o que geraria algum conforto para a plateia) na direção de uma abordagem estranhada, política e não realista (o que demandaria da plateia uma postura ativa e refelxiva).
A ideia também era colar outras camadas de sentido aos diálogos e aos encontros, estranhando-os, colocando em risco as palavras, duvidando e reelaborando as informações das falas e criando outras situações. E assim, fizemos, tudo com o objetivo de superar uma leitura aligeirada da dramaturgia, das personagens e obstruir qualquer leitura superficial da plateia. Queríamos que a plateia estranhasse a forma, com o objetivo de acordá-la, despertá-la para os conteúdos. Especialmente porque os temas que a peça aborda são muito reconhecíveis, estão no noticiário diariamente, há uma saturação deles. Assim precisávamos, politicamente, aprofundar o debate, desmontar as representações cotidianas dos temas e das personagens, e para isso era extremamente necessário estranhar as formas. Tudo muito brechtiano. (Continua...)
Imagem do ensaio aberto:
"CHAT" EM IMAGENS
Aqui estão as belas imagens capturadas pela atriz e jornalista Fátima Braga, que vem fazendo um ótimo trabalho de registro da cena da cidade, disponível em seu orkut. Agradecemos a ela pela generosidade e pelo apoio!
Aqui estão as belas imagens capturadas pela atriz e jornalista Fátima Braga, que vem fazendo um ótimo trabalho de registro da cena da cidade, disponível em seu orkut. Agradecemos a ela pela generosidade e pelo apoio!
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